
O Pequeno Imperador
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O Pequeno Imperador
Em meio a reinos e impérios, conflitos entre nações. Nasce em um pequeno país, isolado pelo mar oeste do continente, uma nobre criança. Menino franzino e sorridente, inocente da maldade e com bondade no coração.
Vivia preso em seu palácio, isolado do mundo exterior. Não possuía preocupações e nenhum temor. Era pequeno e destinado a um fardo, o de futuro imperador.
Tutelado por seu professor, cavaleiro da justiça e vil inquisidor. Tinha a infância sofrida, que passara a ser corrompida, pelas ordens de seu poderoso progenitor, denominado, de O Cruel Ditador.
Vivia como um passarinho engaiolado, porém, por muitos era venerado, enquanto era aprisionado por detrás de portões em cor dourado. Por isso, era isolado e entediado. E mesmo tendo tudo, se sentia como um garoto imundo, proibido de apreciar as belezas de um novo mundo.
Ingênuo e rebelde, cansou de sua rotina repetitiva e inerte. Então, ao cair da noite, em lenções de linho fino, lá se vai o jovem pequenino, escalando as paredes do seu alto quarto, ansioso e meio inquietado, de um jeito um tanto quanto atrapalhado. Tudo isso, para tentar fugir, ao menos por um dia, de seu inevitável destino. Para que finalmente, pudesse parar de se lamentar e dar um lindo sorriso.
Quando seus finos e delicados pés descalços, encostaram no frio chão escuro, ele pode avistar uma nova oportunidade de futuro. Com um confortável sentimento de felicidade, que só a liberdade o poderia proporcionar.
Sentindo essa emoção, correu até acabar todo o ar de seu pulmão. Foi parar nos limites da cidade, em um baixo planalto a beira de um lago, que parecia o apresentar a uma nova realidade.
Parecia ser um pedaço do paraíso divino. Não era mito nem pintura. A lua iluminava a tal noite obscura. As estrelas cintilavam um brilho prateado. E o lago de água límpida refletia o belo manto estrelado. Ao seu lado, em meio ao bosque e rente a água, havia uma moita com rosas brancas, que emitiam um cheiro doce e agradável, e que o remetia a um sentimento de tranquilidade e paz.
Deitou-se sobre a relva fria da geada. Imaginou as heroicas aventuras que viveria vestido com seu traje de gala, feito com tecidos caros e com pele macia e aveludada. E pensou também, nas paixões que ele sofreria e que destruiria os seus sentimentos, em seu futuro tempo de rapaz.
Deitado sobre o relento, pensava em como seria lutar contra o mal a todo momento, em como seria respirar o ar puro da floresta. Pensou até em fazer uma festa! Para comemorar esse sonho tão excepcional.
Quando quase adormecia, ele se assustou com um grave barulho e uma terrível gritaria. O centro da capital real estava sendo invadida. O sentimento de paz cedeu lugar à surtos de desespero e agonia. Apressado, voltou em direção ao seu futuro trono confortável, deixando para trás o planalto reluzente, e indo direto para os braços de sua poderosa família no momento impotente.
Durante a confusão, avistou em meio a rua inúmeros soldados. Vários machucados. Também sentiu um cheiro forte e amargo. Viu pessoas agredidas e sendo feridas por lâminas afiadas, de forma a serem consideradas brutalmente violentadas. Outros, já no chão adormecidos, não podendo mais enxergar a bela prata das estrelas, pois as flechas sobrevoavam as suas cabeças.
Perdido e com medo, atormentado e traumatizado com tamanha barbárie e terror, expressando em sua face uma imagem singela de horror, sentou-se ao lado de uma simples casa, e a sua frente não via mais nada, somente o sangue de gente inocente e ferida. Pela primeira vez, ele percebeu o como a vida poderia ser bonita e ao mesmo tempo sofrida.
O pequeno jovem correu até chegar a uma cidadela. Sempre atravessando becos e se escondendo em estreitas vielas. Já um pouco cansado foi procurar a ajuda de um leal soldado aliado. Porém seu feito fora frustrado. Pois não havia lugar seguro, e com um escudo, um guerreiro se sacrificara, porque uma criança em meio ao campo de batalha ele avistara, então lançou-se na frente, antes que o menino fosse assassinado, por uma flecha mal direcionada.
O pobrezinho não sabia mais o que fazer, o caos já estava implantado, não adiantava mais correr. O coitado se sentia culpado, pois ele não imaginava que quando saísse de sua casa, toda aquela tragédia poderia acontecer. Desesperado, ele fugiu par um lugar menos movimentado, o único que ele conseguiu encontrar. Ele achou algumas caixas de madeira, então ele as arrastou até a beira, onde ficava um canto escuro próximo a uma espécie de cadeia. Então cercou a caixa maior com algumas pilhas das menores, entrou na que ele coube, tentando se proteger dos horrores. Já em surto, se enrolou em um cobertor e fez dali o seu porto-seguro, rezando para que aquilo durasse por um tempo curto. E se caso morresse, que fosse indolor.
Já de manhã, via-se tremular sob as torres uma flamula bicolor, balançando junto aos ventos de uma breve vitória, e hasteada sobre as vidas dos que cederam para a sua glória, que será lembrada nos futuros manuscritos de história.
Depois de ter conseguido adormecer, em seu pequeno esconderijo feito no improviso. O jovem menino, meio que por instinto, resolveu sair e voltar a viver. Mesmo tendo o medo de ali padecer. Não podia se imaginar ou prever a real situação do local. Mesmo assim, parecia que as coisas já haviam se acalmado, que a histeria já se tinha passado e a violência cessado.
Mesmo cansado, mas com a ansiedade alta, o jovem decidiu continuar seguindo rumo ao seu destino futuro. Com o seu coração tomado pelo receio, ele ergueu sua cabeça e com doces palavras disse – Eu creio! – Enchendo de coragem o seu pequeno peito infantil, e seguiu para o centro da cidade, para ficar sob a proteção dos soldados que ao seu pai juraram lealdade.
Com o passar dos minutos, o caminho ficava cada vez mais curto. O palácio ficava mais e mais perto, mas seu fim ainda era incerto. Incrédulo com tudo que acabara por passar, e rezando aos céus, para sua família poder reencontrar.
Entre mil pensamentos, o que mais o abalava era o questionamento, de o porquê haver tanto sofrimento. A crueldade que ele via espalhada por toda a parte, que para uma criança de tão pouca idade, apenas se refletia no sentimento de ódio e tormento, para com toda aquela trágica realidade.
Depois de um longo tempo, ele finalmente chegou ao seu confortável compromisso. Abraçou a sua pálida mãe que se preocupou com o seu sumiço, em meio ao tão inesperado conflito, aliviando-se após o reencontro, e confortando o jovem aflito.
Dentre a angústia sofrida permanecia a memória vivida, mesmos os fatos tendo permanecido no passado, o ódio ocasionado ainda não havia terminado. A ganância do reino invasor ainda assombrava o pequeno imperador. Que no auge de sua inocência, presenciou as mais brutais violências.
Com os seus olhos manchados com a verdadeira realidade humana, deixou aos poucos sua bondade de criança, para resolver a sua vingança, de acordo com as leis da vida mundana. Desde aquele dia, o seu puro coração fora contaminado pelas negras e foscas chamas da raiva, por isso no treino da luta ele insistia, mesmo quando seu franzino corpo não mais aguentava, e já no chão sua energia se esvaia.
Cresceu assim abalado pelo seu histórico neste injusto e trágico mundo. Quem o via de fora dizia que ele era feliz pois vivia no luxo, mas que na realidade sua mente estava chafurdada na miséria, enquanto a riqueza o mantinha aprisionado em seu fluxo.
Pois na realidade, ele só havia tido felicidade, justo no único dia em que ele experimentou o que é a liberdade. Mesmo que depois ele tenha voltado a ser aprisionado, seja por seu destino prescrito, ou por sua mente que ficou doente logo em sua tenha idade.
Depois de adulto, ele percebeu que os conflitos não mais apenas se resumiam aos atritos das nações do velho mundo. Mas que eles já impregnavam nos traços de sua personalidade. Entre a criança inocente e sorridente, e o ser vingativo e amargurado no qual havia se tornado após o incidente, entre os países do oriente e ocidente.
Mesmo que um dia ele tenha desejado fugir de sua vida enclausurado, as amarras do destino o voltaram para os trilhos de seu grandioso fardo. Agora o jovem infantil, se tornou um imperador assim como seu antecessor, e foi mais cruel que o antigo ditador.
Com o poder e espada em mãos, decidiu em definitivo enfrentar os demônios do seu trágico passado, de colocar um fim naquela longa história. Então marchou com seu pequeno exército aliado, com a esperança de obter a glória. Com a derrota do bárbaro, que por ele, jamais deixará de ser lembrado.
Mesmo que antes o inimigo havia sido derrotado, o território vizinho nunca fora ocupado, pois após o massacre ocorrido naquele dia fatídico, o vizinho inimigo já estava quase rendido, porque mesmo que eles tenham invadido a capital, suas principais forças padeceram em território estrangeiro e recuaram sem nenhuma moral.
O antecessor do pequeno imperador, retomou as posses de sua terra antes invadida, e por isso tinha como certo a vitória garantida. Ao tomar para si o título de seu pai, como se fosse a maldição de seu sangue nobre, tinha como principal medida subjugar as forças inimigas, fazendo-os sentir o gosto de suas armas decoradas com o mais fino cobre, e colocá-los no mesmo lugar que os heróis de sua terra que agora os cobrem. Ao mesmo tempo que buscava apagar as chamas presentes em suas feridas, que no peito e mente tanto ardiam. Vingando assim as vítimas do terror que o jovem presenciou, vendo todas aquelas vidas perdidas, que por todo esse tempo o abatiam.
Sem pestanejar, deu-se assim as ordens para o massacre começar. Toda aquela vingança que tento sonhava em almejar, finalmente estava prestes a alcançar. Sem muitas dificuldades o território inimigo ele conseguiu dominar, sempre nutrindo a esperança de seu ódio cessar, para o seu coração poder então se curar.
Em sua tenda sobre o Monte Oriente, longe da batalha na qual não estava presente, o jovem imperador recebeu a feliz notícia, então montado em seu cavalo foi correndo fazer a perícia, e se certificar da derrota do mal que ele tanto queria.
Chegando aos pés do monte, ele viu e se assustou com a chacina constante. O povo que ele havia enfrentado se encontrava já no chão massacrado, relembrou do cheiro forte e amargo, escutou em sua mente doentia um grave barulho e uma terrível gritaria. As lembranças de seu passado atormentado outra vez haviam o reencontrado, e dessa vez, finalmente o derrotado.
Ao seu redor, ele viu pessoas inocentes que foram brutalmente agredidas, ao lado dos velhos algozes e descendentes cujo as vidas haviam sido removidas. As suas ordens de vingança não foram capazes de cicatrizar as suas feridas. Outra vez seus olhos haviam sido manchados com a verdadeira realidade humana, e justo com algo que na infância o causou tanta ojeriza. Mas dessa vez, o pequeno imperador não era mais um mero espectador, mas sim, o único ordenador.
E nisso, as lembranças que sempre o perturbaram depois daquela vista voltaram a o atormentar.
Já com os olhos encobertos pelos prantos do arrependimento e desespero, ele voltou correndo para os limites se sua nativa cidade. No caminho, ele parou no mesmo baixo planalto a beira de um lago, que o fazia relembrar de uma breve realidade cujo teve um ingênuo sentimento de felicidade.
Ainda parecia ser um pedaço do paraíso divino. Não era mito nem pintura. A lua continuava a iluminar a tal noite obscura. As estrelas ainda cintilavam um brilho prateado. E o lago de água límpida, continuava a refletir o belo manto estrelado. Ao seu lado, em meio ao bosque e rente a água, ainda havia uma moita com rosas brancas, que estava maior e mais agradável que no passado, e que continuavam a emitir um cheiro doce e saldável, e que o remetia a um sentimento de tranquilidade e paz.
Nesse momento, ele observou a relva fria da geada, e a si mesmo ele fez o questionamento. - Como poderia existir um espelho do Éden bíblico, em um mundo onde o ser se corrompe e se torna um maníaco insensível.
O agora velho jovem aflito, percebeu que o julgamento angelical tinha acabado de adentrar a porta de seu majestoso quintal. Percebeu que naquele trecho de paraíso, os santos pesariam suas mãos piedosas e justiceiras nos pecados cometidos por seus atos.
Então, com seus olhos marejados, ele tirou a sua roupa de gala, feita com tecidos caros e com pele macia e aveludada. Colheu três rosas brancas, e segurando-as rente ao peito, adentrou no lago de água límpida para ter a sua alma lavada, de toda aquela vida herdada.
Os soldados subordinados ao pequeno imperador atormentado, comemoravam os feitos recém conquistados. Já se podia ver tremular sob as torres uma flamula bicolor, balançando junto aos ventos de uma breve vitória que para eles fora indolor. A euforia era tanta que nem sentiram a falta de seu imperador. Que acabara de partir para a sua glória, mas que será esquecido nos livros de história. Pois como ele nunca quis o seu majestoso fardo herdado, seu grande império imponente, se reduziu a pó. Ao mesmo tempo que seu ser felizmente, ficara em paz para sempre, em seu pequeno palácio nascente. Onde a paz reina soberana sob a barbárie, e onde as tragedias, não são lembradas, pois são levadas junto as puras nuvens de branco mármore.
Sebastião Victor Diniz